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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Palestras sobre os Livros da FUVEST, ministradas por professores da FFLCH/USP, e debates sobre a Universidade Pública

Nossa luta é para além dos muros!

Em 2007, durante a ocupação da reitoria da USP, estudantes de Letras da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) organizaram – como atividade de greve – um ciclo de palestras sobre os livros cobrados no vestibular da FUVEST. A idéia inicial era unir vestibulandos – em especial aqueles ligados a cursinhos populares – ao ambiente universitário e fazer com eles um debate aberto sobre a universidade pública e seus (des)caminhos.

Dois anos se passaram e chegamos ao terceiro ciclo de palestras. Não há muito que o comemorar. Num movimento inversamente proporcional, em 2009 quem ocupou as ruas e reitoria de nossa universidade foi a Polícia Militar. Se há dois anos atrás vivíamos num clima democrático e de intenso debate político, hoje o cheiro do gás de pimenta e os estouros da bombas de efeito moral ainda pululam as mentes dos presentes no fatídico 9 de Junho.

Debater a universidade pública se faz mais importante do que nunca.

Dificuldades não faltam. A burocracia acadêmica se recusa a ceder um de seus auditórios ou anfiteatros, o evento todo é custeado por estudantes e a comissão organizadora é bem pequena se comparada ao tamanho do evento.

O esforço necessário para construção do evento é hercúleo se avaliarmos nossa força e paradoxalmente diminuto se pensarmos na responsabilidade social que nossa universidade deveria ter.

Portanto, não o convidamos simplesmente para assistir palestras sobre livros canônicos que poderão o ajudar a passar no vestibular. Apesar de propiciar um ótimo momento para o vestibulando entrar em contato com o ambiente acadêmico, não é disso – ou somente disso – que se trata o ciclo.

É a hora e vez de debatermos o caráter público de nossa universidade. Para quê e a quem serve? Mais do que isso, colocar em questão assuntos outros que concernem à realidade de todos, por isso o ciclo será acompanhado de uma série de debates que abordarão não só a universidade, como também educação pública, políticas de ação afirmativa e movimentos sociais.

Pensamos as atividades semanalmente, em dias alternados, para que os cursinhos pudessem se organizar e assistir todas palestras, assim como pensamos em começar toda atividade às 18h para que os vestibulandos trabalhadores possam chegar a tempo.

Começaremos nessa sexta (25) com o livro "Auto da barca do inferno" e uma breve mesa de apresentação. Será no núcleo de Consciência Negra da USP.

ACESSE, DIVULGUE E PARTICIPE! http://palestrasfuvest.wordpress.com/

Este ciclo é organizado por estudantes de Letras e pelo CAELL "Oswald de Andrade", o Centro Acadêmico dos estudantes de Letras da USP.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Carta Aberta dos Estudantes de Letras

Desde que entraram em greve, no começo do mês de junho, os estudantes de Letras da Universidade de São Paulo optaram por não retirar cadeiras das salas de aula, nem mesmo fazer piquetes na frente do prédio.

Essa decisão consensual no meio estudantil tinha por objetivo zelar pelo diálogo e convencimento entre as partes, portanto, sempre que uma aula começava, um grupo era formado para informar os colegas de curso sobre as decisões das assembléias (tanto de estudantes como de professores e funcionários), esclarecer dúvidas e convencê-los a aderir ao movimento.

No dia oito de junho, um professor, Gabriel Antunes de Araujo, impediu um grupo de estudantes de levar essas informações aos seus alunos. As turmas deste professor eram as únicas, no curso de Letras, a se manterem completamente lotadas durante a greve. Ao final dessa aula, uma aluna do professor encaminhou-se à assembléia dos estudantes da Letras que acontecia na entrada principal do prédio e deu informe de que o professor teria a prática de, talvez para impedi-los de aderir ao movimento grevista, informar aos alunos que ele não estava em greve, não aderiria a ela e seus alunos que o fizessem correriam o risco de ser reprovados ou por acúmulo de
faltas ou por perda de avaliações. Foi decisão unânime da assembléia que a atitude do professor poderia configurar assédio moral, já que alunos seus estavam sendo impedidos de decidir por si próprios, como informara esta estudante, se adeririam ou não à greve já deflagrada pelos três setores (professores, estudantes e funcionários). A assembléia decidiu, então, de forma conjunta, encaminhar-se até a sala onde o professor estava, sem piquete físico do lado de fora, mas com piquete moral do lado de dentro, e garantir que seus representados estudantes fossem informados, esclarecidos e tivessem o
direito de decidir por si próprios se queriam continuar dentro aquela sala ou sair dela, sem nenhuma pressão ou assédio moral.

Assim que os primeiros estudantes entraram na sala, o professor doutor
Gabriel Antunes de Araújo correu em direção a eles, deu um salto e socou com os dois punhos o peito de um ingressante do primeiro
semestre do curso, empurrando-o para trás. Em seguida, o professor saltou à porta, bateu-a com força contra os demais estudantes que entravam e tentou mantê-la fechada à força, colocando um dos pés para trás, para ter mais apoio, danificando a maçaneta da porta. Percebendo o ridículo da situação, o professor recuou, foi até sua mesa, sacou seu aparelho de telefone celular e começou a fotografar o rosto dos estudantes da assembléia. Percebendo a movimentação, outros professores que passavam pelos corredores tentaram acalmar os ânimos tanto do professor quanto dos estudantes, propondo que ali se estabelecesse o diálogo. A partir daí, Gabriel Araujo passou a dizer,
ainda em estado alterado, que nenhum estudante estaria coagido a assistir suas aulas. "Não recebo por cabeça, portanto é até melhor que eu tenha menos alunos na sala de aula", disse provocativamente o professor. Disse isso tudo não sem dirigir, de forma lamentável para um professor da universidade mais respeitada do país, palavras de baixo calão a um dos diretores do CAELL, o centro acadêmico dos
estudantes do curso de Letras da USP.

Este mesmo professor, semanas antes, entrara em conflito com o movimento estudantil, quando, segundo relatos, haveria agredido verbalmente uma aluna em uma paralisação. Na ocasião os estudantes decidiram fechar uma das entradas do prédio e deixar a outra aberta. Araujo, para espanto de todos, teria olhado de forma provocativa aos manifestantes e começado a empurrar agressivamente mesa e cadeira que ali estavam para cima de uma aluna, em uma tentativa brusca de forçar passagem. Intimidada, nossa colega retirou-se rumo à biblioteca. Tivemos relatos de que ele a teria seguido e apontado o dedo, de forma ameaçadora. Segundo outras pessoas, que ouviam mas não
viam o incidente, ele estaria "berrando que nem um maluco".

Esse mesmo professor teria caracterizado diversas vezes, em sala de aula e fora dela, o movimento de estudantes, professores e funcionários de maneira pejorativa e caluniosa. Segundo alunos matriculados nesse semestre, nas duas matérias lecionadas por ele, desde que a greve começou, o docente teria cobrado presença dos alunos, marcado prova e avisado por e-mail que o conteúdo da mesma seria dado durante o período de greve.

São, no mínimo, insensatas as posições deste professor, cuja contratação pela USP só foi possível graças ao longo movimento grevista de 2002, que conquistou a maior contratação de professores da história da Faculdade. Entretanto, deixamos de nos surpreender, quando passamos a saber que, publicamente, Gabriel Antunes de Araujo é partidário de João Grandino Rodas, o membro do CO responsável pela relatoria da resolução que autoriza a entrada da PM na universidade.

Após todos os incidentes relatados acima, mostrando e confirmando que não cederia ao diálogo de forma alguma - diálogo tão prezado e necessário em uma universidade, local onde as divergências e o debate são tão imprescindíveis quanto dispensáveis são a truculência, a força física, a ameaça moral e policial -, o professor resolveu continuar suas aulas no prédio da Química, para onde convocou seus alunos.

Todos estes fatos aqui relatados foram colhidos de inúmeras testemunhas que assistiram, estupefatas, ao rol de arroubos cênicos descontrolados do professor. Caso algum departamento, a Congregação ou outra parte qualquer considere necessário, nós podemos convocar essas testemunhas para relatar pessoalmente cada um desses lamentáveis acontecimentos protagonizados por um professor tão respeitado por sua produção acadêmica, mas tão relapso em
respeito à democracia e ao debate de idéias, um fundamento indispensável, para a produção de conhecimento na universidade.

Estudantes do curso de Letras da USP:

Amanda de Moraes Brito
Ana Beatriz da Costa Moreira
Ana Cláudia Borguin
Antônio Fernandes Góes Neto
Arielli Tavares Moreira
Beatriz Cyrineo Pereira
Carolina Solano Carrion
Diego Navarro
Diogo Moraes Leite
Edilson da Silva Cruz
Emi Asakura
Erika Pires
Estevão Pascole
Fernando Bustamante
Fernando Peres Penteado
Francisco Cabral
Gabriela Hipólito
Guilherme Augusto de Assis Rodrigues
Gustavo Diniz de Faria
Ícaro Francesconi Gatti
Isadora Rebello
Ísis Liberato Martins
Ivan Antunes
João Paulo de Cária Silva
José Eduardo de Souza Góes
José Quibao Neto
Julia de Almeida
Juliana Lopes Miasso
Kraly de Castella
Lucas George
Leandro Paixão
Luciana Placucci Vizzoto
Luiz Henrique Vieira Lins
Maria Júlia Alves Garcia Montero
Marcilia Barros Brito
Marina Almeida Nascimento
Micael Cimet Dattoli
Michel de Castro Sousa
Milena de Moura Barba
Natalya Amaral Stabile
Nathalia Canale Guerra
Oriana Harumi de Lima Tanaka
Pablo Angyalossy Alfonso
Paula Aparecida Carvalho
Pedro Ribeiro
Peter Mac Hamilton
Raiana Araujo
Rafael de Almeida Padial
Rafael Zanvettor
Renata Alves da Silva
Ricardo Maciel
Sâmia de Souza Bomfim
Simone Oliveira
Suelen A Pereira
Taila Virgine Costa
Tatiana Castro
Thais França Freire
Vanessa Couto da Silva
Vinícius de Lima Zaparoli
Vitor Mortara

Solidariamente, estudantes de outros cursos da USP:

Gabriela Iglesias - Ciências Sociais
Luana Cordeiro Cardoso - Ciências Sociais
Ludmila Facella - Artes Cênicas
Amanda Freire de Sousa - Filosofia

Solidariamente:

Diego Vilanova, professor da rede estadual
Maicon Alves de Miranda, empresário
Maria Estela Veneziane, estudante de Psicologia da Unicsul
Teila Cristina Veneziane, psicóloga
Ana Cristina Oliveira da Silva, professora de História, Recife/PE
Rosa Guadalupe Soares Udaeta, historiadora

As seguintes entidades e órgãos representativos:

Gestão Ver Com Olhos Livres, do CAELL
Comando de Greve dos Estudantes da Letras USP
Assembléia do curso de Letras

sábado, 20 de junho de 2009

Os "bunkers" virtuais

por Clóvis Rossi


Carta do leitor Jorge Henrique Singh, aparentemente um estudante, publicada no domingo, ajuda a entender não apenas o quadro na USP como, mais amplamente, a catatonia da sociedade brasileira.

Diz Singh, em sua carta, que "os estudantes pesquisam, conversam e protestam em rede antes de se deixarem levar por pregadores ideológicos profissionais" .
Então tá, os estudantes retiraram-se para um "bunker" virtual em que "protestam em rede". Enquanto isso, o que ele chama de "pregadores ideológicos profissionais" tomam conta da vida real (e da USP) -sem que os virtuais saiam um pouco de seu mundinho.
Vale para a USP, vale para o conjunto da vida em sociedade. Basta ver a quantidade de "protestos em rede" que giram em torno dos escândalos políticos sem conseguir comover os autores, que preferem a vida real (e a bufunfa real).
Faz pouco, o colunista do "New York Times" Nicholas D. Kristof produziu um belo texto mostrando que a esmagadora maioria dos blogs ou demais instrumentos em rede trava um diálogo de "nós com nós mesmos", ou seja, com quem pensa da mesma maneira (no caso dos Estados Unidos, democratas com democratas, neocons com neocons e por aí vai).
Não há verdadeiramente diálogo se por este se entender um debate entre ideias diferentes. Há um monólogo em que se ouvem apenas vozes com a mesma entonação, uma espécie de onanismo virtual, sem contato com o sexo oposto (no caso, as ideias opostas).
Com isso, desperdiçam-se as possibilidades de democratização oferecidas pela internet. Há, sim, uma imensa cacofonia de vozes, mas, na outra ponta, os ouvidos se fecham para aquelas que não são agradáveis, por desafiarem certezas cultivadas nos "bunkers" virtuais.
Pena que os problemas se resolvam é na vida real.

[texto publicado no jornal Folha de São Paulo em 16 de Junho de 2009]